Ha-Joon Chang: “O preço do livre mercado” [Vozes que me interessam]

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Ha-Joon Chang é a favor de uma política industrial, da intervenção do estado, e do protecionismo, o que o põe em confronto com a vasta maioria dos economistas tradicionais ou ortodoxos, favoráveis ao chamado comércio livre. Que Chang considera nada livre, pois acusa essa prática de estar amarrada por uma série de truques criados ao longo do tempo pelos países ricos, afim de proteger seus mercados de forma escancarada ou disfarçada, enquanto pregam abertura total para os outros, seus concorrentes. Como exemplo, ele cita que o maior defensor de mercados abertos, os Estados Unidos, são os maiores praticantes de política industrial e protecionismo.

E todos os países ricos, insiste Chang, desde o Reino Unido, onde ele mora e trabalha hoje, à Coréia do Sul, onde ele nasceu e se criou, praticaram ou praticam protecionismo na caminhada para o topo. Quando chegam lá em cima, diz ele, se opõem a que outros subam os mesmos degraus. Essa metáfora gerou o título de seu livro de maior sucesso comercial: “Derrubando a Escada”, que tem edição brasileira.

“O maior defensor de mercados abertos, os Estados Unidos, são os maiores praticantes de política industrial e protecionismo”

Um livro mais recente – tem cerca de três anos – segue pelo mesmo caminho de sucesso, com o título curioso de “23 Coisas Que Não Nos Contam Sobre o Capitalismo”, faz críticas severas ao que ele chama de obsessão com conceitos de mercado livre, que ele insiste nada tem de livre.

Seus quase 30 anos de estudos, trabalho e vida no Reino Unido o tornaram bem articulado na explicação de suas ideias em inglês, embora ainda não tenham eliminado por completo o sotaque de quem passou os primeiros anos na Coreia do Sul, onde nasceu em 1963. Foi justamente na década em que o país devastado pela guerra com o Norte, dez anos antes, começou a sair da pobreza (tinha indicadores piores do que o Brasil) e deslanchou um processo de desenvolvimento – com uso de muita política industrial -, a ponto de ter se tornado uma das nações ricas do mundo, com uma renda per capita duas vezes maior que a brasileira.

Nesta entrevista, ele nos dá sua versão de porque a Coreia avançou mais que o Brasil e produz hoje carros com design, tecnologia e marcas próprias (Hyundai, por exemplo), além de produtos eletrônicos high-tech (como da Samsung). Chang lembra que o Brasil fez o mesmo com a Embraer e a Petrobras, criando tecnologia própria, com apoio do estado, mas deveria ter feito também em outros setores da indústria.

Curiosamente, diz ele, os últimos anos viram os sulcoreanos se transformarem em povo “desesperadamente infeliz”, o que ele garante não ser uma tradição cultural (“nunca fomos efusivos iguais a vocês brasileiros, mas também não éramos tristes como os japoneses) e sim resultado de transformações econômicas que criaram desemprego, medo, insegurança, alta competitividade, depressão e suicídios em números recordes. Nesta entrevista concedida ao Programa Milênio, ele explica.

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