Modelos mentais individuais e coletivos: cuidado, as rotinas automáticas são inflexíveis!

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2027

O modelo mental é o conjunto de sentidos, pressupostos, regras de raciocínio, inferências etc.. que nos leva a fazer determinada interpretação. Como afirma Peter Senge, “são pressupostos profundamente arraigados, generalizações, ilustrações, imagens ou histórias que influem na nossa maneira de compreender o mundo e nele agir”. Operam permanentemente de modo subconsciente, na nossa vida pessoal, no âmbito profissional em nossas organizações sociais, ajudando-nos a dar sentido à realidade e nela operar com efetividade. Os modelos mentais condicionam todas as nossas interpretações e ações. Eles definem como percebemos, sentimos, pensamos e interagimos.

Diferentes modelos mentais podem motivar diferentes percepções, sentimentos, opiniões e ações. Por exemplo, para o contador, um determinado resultado de uma empresa está mostrando estabilidade e que deveria manter seu curso. Para o vice-presidente de marketing, o resultado prova que a empresa está estagnada e que deveria começar uma nova campanha de publicidade. Para um membro da diretoria, é a “reprovação” à política do CEO. Para um investidor, sugere que é tempo de vender suas ações; para outro, que é momento de comprar. O resultado é o mesmo, o contexto mundano é o mesmo; o que explica as diferenças são os diferentes modelos mentais.

As diferentes percepções, opiniões e ações não constituem um problema em si mesmas. Elas se tornam conflituosas, na verdade, quando cada pessoa acredita que a sua maneira de ver as coisas (de acordo com seu modelo mental) é a maneira de vê-las; pelo menos, a única “razoável”. Claro que a ideia de “racionalidade” é uma opinião condicionada pelo modelo mental de cada pessoa. Cada um acredita que seu modelo é o modelo válido. Em vez de utilizar as diferentes percepções para expandir suas perspectivas e integrá-las em uma visão comum, cada um dos interlocutores se aferra ao seu próprio ponto de vista. Em vez de indagar sobre o raciocínio do outro para compreender seu modelo mental, os interlocutores travam uma batalha para definir quem tem razão, quem tem a interpretação “correta” da realidade.

Os modelos mentais são também o arquivo que contém os comportamentos rotineiros. Como já vimos, ao iniciar uma prática (como dirigir um automóvel, por exemplo), a pessoa precisa prestar atenção consciente para tomar decisões não programadas. Mas com o passar do tempo, ela desenvolve a capacidade agir de modo automático, transferindo essas decisões para o inconsciente e aproveitando aquilo que Gregory Bateson denomina “a economia do hábito”. Essa economia é fundamental para a vida, já que sem ela seria impossível agir com a velocidade exigida pelas circunstâncias. Mas ela também tem um custo: as rotinas automáticas são inflexíveis.

A inflexibilidade do hábito é crucial para operar com eficiência em contextos estáveis. Como o piloto automático de um avião, o hábito permite que o piloto humano preste atenção a outras coisas. Mas voar com piloto automático no meio de uma tempestade é muito perigoso. A falta de flexibilidade e adaptação diante das mudanças de contexto é uma das principais causas de extinção de espécies (como os dinossauros), culturas (como a romana), empresas (99 de cada 100 desaparecem sem seus primeiros 10 anos e a média estimada de vida das empresas Fortune 500 é inferior a 40 anos), famílias (60% dos casamentos no Brasil terminam em divórcio) e pessoas (segundo dados recentes, 50% das mortes antes dos 40 anos podem ser atribuídas ao comportamento das pessoas).

As fontes dos modelos mentais

Os filtros através dos quais nós, seres humanos, organizamos e damos sentido às nossas experiências provêm de quatro fontes: a biologia, a linguagem, a cultura e a história pessoal. Essas quatro fontes também determinam a resposta “habitual” a certas circunstâncias, programada no modelo mental.

  • Biologia

O primeiro filtro dos modelos mentais é o sistema nervoso. Temos limitações fisiológicas que nos impedem de perceber certos fenômenos com os sentidos. O alcance do ouvido humano, por exemplo, é de 20 a 20.000 vibrações por segundo, enquanto os cães conseguem ouvir tons mais agudos e os elefantes, tons mais graves. A visão noturna do ser humano não se compara com a do felino, e nossa visão a distância é muito inferior à do falcão. Em termos de longitue de onde, o ser humano é capaz de ver diretamente as frequências que estão entre 380 e 680 milímetros, ou seja, uma faixa minúscula do espectro eletromagnético.

A impossibilidade de perceber implica impossibilidade de agir. Enquanto o cão responde a um apito ultra-sônico, a pessoa nem o ouve. Enquanto o morcego opera na mais absoluta escuridão, a pessoa se perde. Por isso nós, seres humanos, inventamos instrumentos como o sonar e o radar para expandir o alcance perceptual de nossos sentidos e, consequentemente, nossa capacidade de ação.

Nossa interconexão com o mundo é bem mais complicada do que pensamos. A teoria objetiva da percepção afirma que o mundo “lá fora” cria mudanças diretas e produz efeitos no sistema nervoso “aqui dentro”. Desafiando essa teoria, Humberto Maturana e Francisco Varela argumentam que o mundo exterior só consegue produzir perturbações no sistema nervoso. A experiência perceptual do sujeito está muito mais determinada pela própria estrutura de seu sistema nervoso do que pela perturbação externa. Em A árvore do conhecimento, Maturana e Varela definem o sistema nervoso como um sistema fechado. Essa ideia contradiz a noção tradicional que o define como “um instrumento que consegue informação do entorno e constrói uma representação do mundo, a qual o organismo utiliza para calcular o comportamento adequado para a sua sobrevivência. De acordo com Maturana e Varela, “no que se refere à biologia e às estruturas cognitivas humanas, o mundo inteiro das nossas experiências está dentro de nós mesmos; não existe essa coisa determinada experiência do lá fora”.

Essa teoria explica por que todos os seres humanos observam a mesma imagem quando olham um objeto, mesmo quando nenhum deles pode experimentar por si mesmo o mundo exterior. A semelhança da nossa biologia nos permite operar em uma realidade comum. Maturana e Varela afirma que o que a pessoa experimenta é a “(realidade)” e não a “realidade”. Escrita assim, entre parênteses a “(realidade)” denota a experiência interna do campo de energias, externo e incognoscível, que denominamos “realidade” sem parênteses. Vivemos em uma (realidade) inter-subjetiva, não porque a (realidade) que vemos seja a realidade real, externa objetiva, mas porque o ambiente desperta respostas semelhantes em nossos sistemas nervosos.

  • Linguagem

O segundo filtro dos nossos modelos mentais é a linguagem. A linguagem é o meio no qual se estrutura a consciência do ser humano. A linguagem é o espaço de sentido no qual a (realidade) aparece de modo inteligível e comunicável. Graças à linguagem, podemos nos comunicar com nós mesmos e com outros a respeito do que existe à nossa volta e dentro de nós.

A compreensão tradicional da linguagem é a “teoria das etiquetas”. Segundo esta teoria, vemos as coisas no mundo tais como elas são e depois lhes aplicamos um nome, uma etiqueta. Esse é o uso primário da linguagem: um sistema descritivo para rotular e classificar as percepções preexistentes e, portanto, independentes. Essa teoria é sumamente incompleta e só dá conta de uma função muito pequena da linguagem. Os investigadores da cognição, do cérebro e da consciência concluíram que as categorias linguísticas não são etiquetas aplicadas a percepções preexistentes; pelo contrário, elas pré-condicionam e definem em primeiro lugar a percepção: a pessoa não fala do que vê, mas só vê aquilo de que pode falar.

O contador “observa” num balanço coisas que o engenheiro mecânico não vê. Não que o engenheiro não veja aqueles mesmos números; ele não tem as distinções que tem o contador (a linguagem) para interpretar aqueles números. O engenheiro mecânico consegue “ler” um sistema de equações diferenciais que é totalmente incompreensível para o contador. Não que o contador não veja aqueles mesmos sinais; ele não tem as distinções que tem o engenheiro (a linguagem) para interpretar aqueles sinais. A capacidade de fazer distinções e ordenar o mundo em categorias operacionais é o que se chama “inteligência”.

  • Cultura

A terceira fonte dos modelos mentais é a cultura. Poderíamos considerar a cultura como um modelo mental coletivo. Como define Edgard Schein, “a cultura é um padrão de pressupostos básicos compartilhados, aprendidos por um grupo durante o processo de resolução de seus problemas de adaptação externa e integração interna. A prova de que esse padrão de pressupostos funciona é que ele tem funcionado bem o suficiente para ser considerado válido e, portanto, apto para ser ensinado aos novos membros como a maneira correta de perceber, pensar e sentir os temas referentes ao grupo”.

“Aqui não se questiona a autoridade.” “Aqui as decisões são tomadas por consenso.” “Aqui compramos do fornecedor que tem os melhores preços.” “Aqui os homens saem para trabalhar enquanto as mulheres ficam dentro de casa.” “Aqui as mulheres são independentes e fazem a própria vida.” “A natureza é um recurso para ser utilizados pelo homem.” “A natureza é sagrada e a função do homem é preservá-la.” Cada uma dessas frases ilustra uma premissa cultural. As ideias se aglutinam em um modelo mental coletivo que organiza a (realidade) de uma cultura.

Dentro de qualquer grupo (famílias, profissões, organizações, indústrias, nações), os modelos mentais coletivos se desenvolvem com base em experiências compartilhadas. Ao longo de sua história, os membros do grupo precisam enfrentar desafios. Em resposta, eles desenvolvem uma forma habitual (no sentido dado por Bateson) de interpretar as situações e empreender ações. Isso vai se transformando numa parte do modelo mental coletivo e passa de geração a geração como o “conhecimento” do grupo. O problema é que, com seu retrocesso à noite dos tempos, tal conhecimento perde sua raiz experiencial e se transforma numa verdade absoluta. Em vez de ser “a maneira pela qual nosso grupo respondeu efetivamente aos desafios do passado”, tem-se agora “a única maneira correta de responder aos desafios do presente e do futuro”.

Os modelos mentais coletivos também são uma faca de dois gumes, como os individuais: por um lado, ajudam o grupo a estruturar a compreensão efetiva e eficiente da sua realidade, com base nas experiências passadas; mas, por outro lado, determinam o âmbito de experiências futuras possíveis. Esse sistema autovalidante ajuda a manter a estabilidade e o significado dentro de um grupo – na verdade, em tempos de mudanças drásticas, a cultura (que é sempre essencialmente conservadora) pode se transformar em um salva-vidas de chumbo. Os desafios às crenças compartilhadas criam ansiedade e entrincheiramento. Mudar os pressupostos culturais é um processo extremamente árduo.

  • História pessoal

A quarta força que dá forma aos modelos mentais é a história pessoal: raça, sexo, nacionalidade, origem étnica, influências familiares, condição social e econômica, nível de educação, a maneira como fomos tratados por nossos pais, irmãos, professores e companheiros de infância, a maneira como começamos a trabalhar e nos tornarmos auto-suficientes etc. Todas essas experiência moldam o modelo mental que a pessoa utiliza para navegar pelo mundo. Do mesmo modo como as experiências coletivas de aprendizado se transforma na cultura, as experiências pessoais de aprendizado se alojam nos estratos mais básicos da consciência e criam predisposições automáticas a interpretar e agir.

Há premissas do modelo mental que as pessoas adotam desde a mais tenra infância, mesmo antes de terem alguma capacidade de reflexão crítica. Ao longo da vida, essas ideias recebidas de maneira inconsciente se mantêm subjacentes à infinidade de juízos, atitudes e comportamentos que a pessoa considera “óbvios”. Por exemplo, uma menina cresceu numa família com um pai ausente e, como resultado, pensa que “os homens não são confiáveis para cumprir suas obrigações”. Ao mesmo tempo, o menino dessa mesma família cresce formando a opinião de que “os homens são livres para fazer o que quiserem”.

Acreditamos que a nossa história pertence ao  passado, mas os modelos mentais projetam esse passado para o presente e o futuro. Assim como um computador, o cérebro tem acesso permanente às experiências de vida acumuladas na memória e pode extrapolá-las para o presente e o futuro, como guia para a interpretação e a ação.

Isso é especialmente perigoso quando o modelo mental está “ancorado” numa situação histórica não resolvida. Nesses casos, a pessoa pode ficar presa num circuito repetitivo, recriando simbolicamente alguma experiência traumática e tentando mudar seu resultado. Por exemplo, o indivíduo que explode em rebeldia contra seu chefe talvez esteja regredindo à infância numa tentativa de concluir assuntos pendentes com seu pai. O sinal que denota a regressão é a total inconsciência com que se realiza a ação. De volta à casa, tentando explicar à esposa por que razão foi despedido, ele diz: “Não sei o que aconteceu; quando ele me mandou refazer todo o trabalho, perdi as estribeiras e grite com ele.”

As experiências pessoais, a biologia, a linguagem e a cultura forjam cada modelo mental particular. Esse modelo leva a pessoa a se associar com certos indivíduos e não com outros; a pensar de uma certa maneira e rechaçar outra; a empreender certas ações sem sequer considerar outras; a decidir o que é aceitável e o que não é. Cada pessoa funciona a partir do seu modelo mental e vive naturalmente na “sua” (realidade). Mas essa (realidade) talvez não seja a mesma percebida pelos outros, cuja biologia, linguagem, cultura e histórias pessoais são diferentes. Todos os seres humanos vivem na mesma realidade, mas a experimentam subjetivamente de maneira diversa. É por isso que nem todos os seres humanos vivem na mesma (realidade), fato que tem sérias consequências.

Fonte: Metamanagement por Fredy Kofman

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Hélio Teixeira - Cientista-chefe do Centro de Estudos e Pesquisa em Ciência de Dados e Inteligência Artificial do IHT - é um estudioso da aprendizagem e da criatividade humanas como processos segundo ele "participativos e sociotecnicamente distribuídos." Sua pesquisa busca entender o que ele chama de "estruturas sociotécnicas de pertencimento necessárias à emergência da aprendizagem e da criatividade nos grupos humanos, concebidos como sistemas complexos." Ele adota uma abordagem transdisciplinar, articulando saberes da ciência da complexidade, ciências da aprendizagem, psicologia social, design participativo, inteligência artificial e psicologia cognitiva. Cientista de dados especializado em modelagem de dados e inteligência artificial algorítmica. Apaixonado por Modelagem Baseada em Agentes, com predileção pelos ambientes Mesa/Python e NetLogo, e pelo desenvolvimento de algoritmos de inteligência artificial. É fundador do Instituto Hélio Teixeira (IHT), do ColaboraLab e do Programa Letramento Tecnológico.

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