A inteligência como um sistema complexo (Teoria das Múltiplas Inteligências de Howard Gardner)

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Neste segundo post da série “O que é inteligência” vamos falar de duas teorias que concebem a inteligência como um sistema complexo: a “Teoria das Múltiplas Inteligências” (de Howard Gardner) e a “Teoria Triárquica” (de Robert Sternberg). Dividi este post em duas partes. Na primeira, abordaremos a teoria de Gardner, e na segunda, a teoria de Sternberg.

Inteligências Múltiplas

É professor de Educação e professor-adjunto de Psicologia na Universidade de Harvard. É conhecido por sua teoria de múltiplas inteligências e por mostrar como a teoria pode ser aplicada aos setores educacionais. Realizou também importantes trabalhos em neuropsicologia, assim como em psicologia da criatividade.

Howard Gardner propôs uma teoria de inteligências múltiplas, na qual a inteligência não é exatamente um constructo isolado, unitário. Entretanto, em vez de falar de capacidades múltiplas que a constituem em conjunto, como fizeram outros teóricos, como Thurstone, Gardner fala de sete inteligências distintas que são relativamente independentes uma da outra (ver figura abaixo). Cada uma é um sistema individual de funcionamento, embora esses sistemas possam interagir, a fim de produzirem o que consideramos desempenho inteligente. Observando a lista de inteligência de Gardner, você pode desejar avaliar suas próprias inteligências, talvez classificando suas potencialidades em cada uma.

Em alguns aspectos, a teoria de Gardner parece uma teoria fatorial, pois especifica diversas capacidades que são construídas para refletirem a inteligência de algum modo. Entretanto, ele considera cada capacidade como uma inteligência independente, não apenas como uma parte de um único todo. Além do mais, uma diferença crítica entre a teoria de Gardner e as teorias fatoriais está nas fontes de evidência que ele utilizou para identificar as sete inteligências. Ele usou operações convergentes, coletando evidências de múltiplas fontes e tipos de dados.

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Das sete inteligências de Howard Gardner, em qual delas você mostra mais capacidade? Em quais contextos você pode usas suas inteligências mais eficientemente?

Particularmente, Gardner chama a atenção para oito “sinais” que utilizou como critérios para detectar a existência de uma espécie distinta de inteligência:

  1. Isolamento potencial por dano cerebral, no qual a destruição ou privação de uma área isolada do cérebro (p. ex., as áreas ligadas à afasia verbal) pode destruir ou privar de um tipo específico de comportamento inteligente.
  2. A existência de pessoas excepcionais (p. ex., prodígios musicais ou matemáticos) que demonstram extraordinária capacidade (ou déficit) em um determinado tipo de comportamento inteligente.
  3. Uma operação ou um conjunto de operações centrais identificáveis (p. ex., detecção de relações entre tons musicais) que são essenciais à realização de um tipo específico de comportamento inteligente.
  4. Uma história característica de desenvolvimento que leva do principiante ao mestre, juntamente com níveis discrepantes de desempenho experto (i. e., graus variados de expressão desse tipo de inteligência).
  5. Uma história evolutiva característica, na qual os acréscimos em inteligência podem estar associados plausivelmente ao aumento da adaptação ao ambiente.
  6. Evidência de apoio da pesquisa experimental cognitiva, como as diferenças de desempenho específico para a tarefa, entre espécies distintas de inteligência (p. ex., tarefas visuoespaciais vs. tarefas verbais), acompanhadas por semelhanças no desempenho entre tarefas dentro de espécies distintas de inteligência (p. ex., rotação mental de imagens visuoespaciais e evocação da memória dessas imagens).
  7. Evidência de apoio dos testes psicométricos indicando inteligências distintas (p. ex., desempenho diferente em testes de capacidades visouespaciais vs. testes de capacidade linguísticas).
  8. Suscetibilidade à codificação em um sistema simbólico (p. ex., linguagem, matemática, notação musical) ou em uma arena culturalmente planejada (p. ex., em uma dança, ginástica, teatro, engenharia ou cirurgia, como expressões culturalmente planejadas da inteligência cinestésica corporal).

Desse modo, embora Gardner não dispense inteiramente o uso de testes psicométricos, a base da evidência utilizada por ele não repousa unicamente na análise fatorial de vários testes psicométricos. Ponderando sobre suas próprias inteligências, quão inteiramente integradas você acredita que elas possam ser? De que maneira você percebe cada tipo de inteligência como dependendo uns dos outros?

A concepção de Gardner sobre a mente é modular. Os teóricos da modularidade crêem que as diferentes capacidades – tais como as inteligências de Gardner – podem ser isoladas à medida que emanam de regiões distintas ou de módulos cerebrais. Assim, uma tarefa importante da pesquisa atual e futura sobre inteligência é isolar as regiões cerebrais responsáveis por cada uma das inteligências. Ele especulou sobre, pelo menos, alguns desses locais, mas a difícil evidência para a existência dessas inteligências distintas ainda tem de ser produzida.

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Hélio Teixeira – Cientista-chefe do Centro de Estudos e Pesquisa em Ciência de Dados e Inteligência Artificial do IHT – é um estudioso da aprendizagem e da criatividade humanas como processos segundo ele “participativos e sociotecnicamente distribuídos.” Sua pesquisa busca entender o que ele chama de “estruturas sociotécnicas de pertencimento necessárias à emergência da aprendizagem e da criatividade nos grupos humanos, concebidos como sistemas complexos.” Ele adota uma abordagem transdisciplinar, articulando saberes da ciência da complexidade, ciências da aprendizagem, psicologia social, design participativo, inteligência artificial e psicologia cognitiva. Cientista de dados especializado em modelagem de dados e inteligência artificial algorítmica. Apaixonado por Modelagem Baseada em Agentes, com predileção pelos ambientes Mesa/Python e NetLogo, e pelo desenvolvimento de algoritmos de inteligência artificial. É fundador do Instituto Hélio Teixeira (IHT), do ColaboraLab e do Programa Letramento Tecnológico.

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