O que é inteligência? (Parte 1: a visão da psicologia cognitiva)

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Neste primeiro post da série “O que é inteligência?”, vamos mostrar como os psicólogos cognitivos concebem a inteligência. Mas, antes de começar a leitura, tente responder as seguintes questões:

1 – A vela está para o sebo assim como o pneu está para (a) automóvel; (b) círculo; (c) borracha; (d) concavidade.

2 – Complete esta série: 100%; 0,75; 1/2 (a) inteiro, (b) um oitavo. (c) um quarto.

3  – Complete esta série:

teste

4 – Você está em uma reunião de pessoas contadoras da verdade e de mentirosas. As contadoras da verdade sempre dizem a verdade e as mentirosas sempre mentem. Você conhece alguém novo. Ela conta-lhe que acabou de ouvir uma conversa na qual uma garota disse que ela era uma mentirosa. A pessoa que você conheceu é uma mentirosa ou uma contadora da verdade?

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Acredita-se que cada uma das tarefas acima, ao menos por alguns psicólogos cognitivos, exige algum grau de inteligência (veja as respostas no fim deste post). Inteligência é um conceito que pode ser considerado como reunindo toda a psicologia cognitiva.

Exatamente, o que é inteligência? Em 1921, quando os editores da Revista de Psicologia Educacional fizeram esta pergunta a 14 psicólogos famosos, as respostas variavam, mas geralmente abrangiam este dois temas: a inteligência envolve a capacidade de aprender a partir da experiência e a capacidade para adaptar-se ao ambiente circundante.

Sessenta e cinco anos mais tarde, os psicólogos Robert J. Sternberg e Douglas K. Detterman fizeram a mesma pergunta a 24 psicólogos cognitivos com expertise em pesquisa da inteligência. Também eles enfatizaram a importância da aprendizagem a partir da experiência e da adaptação ao ambiente. Também ampliaram a definição, para salientar a importância da metacognição – compreensão e controle, pelas pessoas, de seus próprios processos de pensamento. Os especialistas contemporâneos também enfatizaram mais fortemente o papel da cultura, mostrando que o que é considerado inteligência em uma cultura pode ser considerado imbecil em outra cultura. Resumindo, inteligência é a capacidade para aprender a partir da experiência, usando processos metacognitivos para melhorar a aprendizagem, e a capacidade para adaptar-se ao ambiente circundante, que pode exigir diferentes adaptações dentro de diferentes contextos sociais e culturais.

inteligência é a capacidade para aprender a partir da experiência, usando processos metacognitivos para melhorar a aprendizagem, e a capacidade para adaptar-se ao ambiente circundante, que pode exigir diferentes adaptações dentro de diferentes contextos sociais e culturais

Segundo o Oxford English Dictionary, a palavra inteligência ingressou entrou em uso aproximadamente no século XII. Hoje em dia, podemos procurar inteligência em inúmeros dicionários, mas a maioria de nós ainda tem suas próprias ideias implícitas (incofessadas) sobre o que significa ser sabido; isto é, temos nossas próprias teorias implícitas da inteligência. Usamos nossas teorias implícitas em muitas situações sociais, tais como quando encontramos as pessoas ou quando descrevemos pessoas que sabemos ser muito sabinas ou não tão sabidas.

Dentro de nossas teorias implícitas da inteligência, também reconhecemos que a inteligência tem diferentes significações em diferentes contextos. Um vendedor sabido pode mostrar uma espécie de inteligência diferente da de um neurocirurgião sabido ou de um contador sabido, cada um dos quais pode apresentar uma espécie de inteligência diferente da de um sabido coreógrafo, compositor, atleta ou escultor. Frequentemente, usamos nossas definições implícitas e relevantes ao contexto de inteligência para fazer avaliações da inteligência. Seu mecânico é suficientemente sabido para descobrir e reparar o problema de seu carro? Seu médico é suficientemente sabido para descobrir e tratar seu problema de saúde? Essa pessoa atraente é suficientemente sabida para manter seu interesse em uma conversa?

As definições explícitas da inteligência, seguidamente, também assumem um foco orientado para a avaliação. De fato, alguns psicólogos, como Edwin Boring, contentavam-se em definir a inteligência como, seja o que for, o que os testes medem. Essa definição, lamentavelmente, é circular porque, de acordo com ela, a natureza da inteligência é o que é testado, mas o que é testado deve, necessariamente, ser determinado pela sua natureza. Embora a maioria dos psicólogos cognitivos não chega a esse extremo, a tradição de tentar compreender a inteligência pela medição de vários desses aspectos tem uma longa história. (Aliás, as “medidas da inteligência” serão objeto de discussão no próximo post desta série)

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A propósito, as respostas às questões do início do post são como segue:

1 – As velas. frequentemente, são feitas de sebo, exatamente como os pneus, frequentemente, são feitos de (c) borracha.

2 – 100% 0,75 e 1/2 são quantidades que decrescem sucessivamente 1/4; a fim de completar a série, a resposta é  (c) um quarto, que resulta de um decréscimo ulterior de 1/4.

3 – A primeira série era um círculo e um quadrado. seguidos por dois quadrados e um círculo, seguidos por três círculos e um quadrado; a segunda série eram três triângulos e um quadrado, que deveriam ser seguidos por (b) quatro quadrados e um triângulo.

4 – A pessoa que você conheceu é, evidentemente, uma mentirosa. Se a garota sobre a qual essa pessoa estava falando fosse uma contadora da verdade, ela teria dito que era uma contadora da verdade. Se ela fosse uma mentirosa, teria mentido e dito que era uma contadora da verdade, também. Assim, independentemente de ser a garota uma contadora da verdade ou mentirosa, ela deveria ter dito que era uma cotadora da verdade. Uma vez que o homem que você conheceu disse que ela disse ser uma mentirosa, ele deve estar mentindo e, daí, deve ser um mentiroso.

Referências:

Sternberg, R. J., & Detterman, D. K. (Eds.). (1986). What is Intelligence? Norwood, USA: Ablex

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Hélio Teixeira - Cientista-chefe do Centro de Estudos e Pesquisa em Ciência de Dados e Inteligência Artificial do IHT - é um estudioso da aprendizagem e da criatividade humanas como processos segundo ele "participativos e sociotecnicamente distribuídos." Sua pesquisa busca entender o que ele chama de "estruturas sociotécnicas de pertencimento necessárias à emergência da aprendizagem e da criatividade nos grupos humanos, concebidos como sistemas complexos." Ele adota uma abordagem transdisciplinar, articulando saberes da ciência da complexidade, ciências da aprendizagem, psicologia social, design participativo, inteligência artificial e psicologia cognitiva. Cientista de dados especializado em modelagem de dados e inteligência artificial algorítmica. Apaixonado por Modelagem Baseada em Agentes, com predileção pelos ambientes Mesa/Python e NetLogo, e pelo desenvolvimento de algoritmos de inteligência artificial. É fundador do Instituto Hélio Teixeira (IHT), do ColaboraLab e do Programa Letramento Tecnológico.

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