O desafio de construir uma escola verdadeiramente colaborativa

Precisamos construir uma escola em que a colaboração não se limita a um conjunto de estratégias usadas por certos professores na ‘sua’ sala de aula. Uma escola que se concebe como exercício de consciente levantamento das possibilidades de atividade mental comunitária e como meio de aquisição de conhecimento e capacidade.

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O sucesso dos métodos de aprendizagem colaborativa, parece razoável assumir, será tanto maior quanto mais o funcionamento da sala de aula e da escola em geral se basearem na colaboração e à medida que se for gradualmente estabelecendo uma cultura de escola que quebre o tradicional isolamento do professor, com os ‘seus’ alunos. A colaboração entre alunos a nível da sala dificilmente se transforma em prática sistemática e reconhecida se não for suportada por um funcionamento democrático e participado da escola, isto é, se a organização escolar e a atividade de professores, alunos, funcionários, pais e membros da comunidade não assentar em relações de colaboração.

o desafio é transformar uma escola atomizada em pequenos grupos, que dificilmente se articulam e muitas vezes se definem por oposição mútua, numa escola em que professores, pais e alunos se sentam a uma mesma mesa e encontram formas de colaborar no dia-a-dia

Sabemos, no entanto, que a cultura dominante na escola atual não se situa na tradição da colaboração, da colegialidade, da discussão franca e aberta e do conflito positivo e que a colaboração, seja na sala de aula seja a nível de escola, não é um processo fácil que se aprende e usa de um dia para o outro. Implica experimentar, ultrapassar barreiras, enfrentar críticas vagas e incompreensão. Implica persistência para ultrapassar a resistência à mudança e à introdução de novas metodologias mais ativas e responsabilizadoras, resistência essa muitas vezes protagonizada (ou mimetizada) pelos próprios alunos, para quem o refúgio na previsibilidade da sala de aula e do manual escolar oferece uma falsa segurança. Mas o desafio é transformar uma escola atomizada em pequenos grupos, que dificilmente se articulam e muitas vezes se definem por oposição mútua, numa escola em que professores, pais e alunos se sentam a uma mesma mesa e encontram formas de colaborar no dia-a-dia.

Apesar de suas limitações naturais, a atual estrutura organizacional das escolas pode revelar-se positiva se for encarada de forma dinâmica. A direção da escola — executiva e pedagógica — pode incentivar a criação de equipes colaborativas de professores e de equipes mistas de trabalho que, de forma flexível, e seguindo elas próprias metodologias de projeto e investigação-ação, envolvam escola e comunidade. É possível construir uma escola em que a colaboração não se limita a um conjunto de estratégias usadas por certos professores na ‘sua’ sala de aula. Uma escola que se concebe como exercício de consciente levantamento das possibilidades de atividade mental comunitária e como meio de aquisição de conhecimento e capacidade. A escola que Bruner (2000) descreve:

“… a construção de culturas escolares que operem como comunidades mútuas de alunos, envolvidos conjuntamente na resolução de problemas, na contribuição de todos para o processo de educação mútua.( …) não só um espaço de instrução, mas um foco de identidade e de trabalho recíproco. … Em tais culturas escolares ser inatamente bom em algo implica, entre outras coisas, ajudar os outros a serem melhores nisso.”

Eis um objetivo que devemos perseguir com todo o nosso vigor!

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Hélio Teixeira - Cientista-chefe do Centro de Estudos e Pesquisa em Ciência de Dados e Inteligência Artificial do IHT - é um estudioso da aprendizagem e da criatividade humanas como processos segundo ele "participativos e sociotecnicamente distribuídos." Sua pesquisa busca entender o que ele chama de "estruturas sociotécnicas de pertencimento necessárias à emergência da aprendizagem e da criatividade nos grupos humanos, concebidos como sistemas complexos." Ele adota uma abordagem transdisciplinar, articulando saberes da ciência da complexidade, ciências da aprendizagem, psicologia social, design participativo, inteligência artificial e psicologia cognitiva. Cientista de dados especializado em modelagem de dados e inteligência artificial algorítmica. Apaixonado por Modelagem Baseada em Agentes, com predileção pelos ambientes Mesa/Python e NetLogo, e pelo desenvolvimento de algoritmos de inteligência artificial. É fundador do Instituto Hélio Teixeira (IHT), do ColaboraLab e do Programa Letramento Tecnológico.

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