De que falamos quando falamos em “pensamento social”?

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Uma resposta promissora à pergunta que dá título a este post, começa pelo trabalho do filósofo e psicólogo britânico Horace Romano Harré. Ele propôs uma tipologia dos fenômenos psicológicos organizada a partir de dois eixos (ver figura abaixo). Um eixo que opõe o coletivo vs. individual; e um outro que opõe o público vs. privado. O cruzamento destes dois eixos gera quatro espaços onde é possível situar diferentes fenômenos que envolvem a cognição. O pensamento social situa-se no quadrante definido pelo público e pelo coletivo, opondo-se, nomeadamente, ao individual e ao privado.

HARRE

Exemplos clássicos de pensamento social em ação são os rumores e a memória social. Os rumores são formas coletivas de conhecimento, envolvem interações sociais e acontecem no espaço público. Exemplos de pensamentos sociais são ainda as crenças coletivas como a crença num mundo justo

Exemplos clássicos de pensamento social em ação são os rumores e a memória social. Os rumores são formas coletivas de conhecimento, envolvem interações sociais e acontecem no espaço público. Exemplos de pensamentos sociais são ainda as crenças coletivas como a crença num mundo justo. Esta crença refere-se ao fato de agirmos – na maioria dos casos sem nos darmos conta – como se cada um tivesse o que merecesse e merecesse o que tem. São ainda exemplos de conteúdos de pensamento social as crenças básicas sobre o funcionamento das sociedades democráticas. Aqui podemos citar o trabalho de Irwin Katz and Glen Hass. Eles propuseram, com base em uma investigação empírica realizada nos EUA e replicada noutros contextos nacionais, que os valores associados ao individualismo meritocrático (que justificam as desigualdades sociais) e os valores igualitários (que se opõem às desigualdades) coexistem e são ambos idealizados como fundadores da ordem social democrática. No mesmo sentido, outros pesquisadores defendem que as sociedade contemporâneas são sustentadas por mitos legitimadores de orientação oposta: os que legitima a desigualdade entre grupos sociais (como as teorias raciais, o sexismo ou as teorias nacionalistas) e os que se opõem e promovem a igualdade entre grupos, como a ideia de direitos humanos universais.

A importância dos processos associados ao pensamento social, para compreendermos a ação social e o próprio funcionamento do sistema cognitivo, foi sublinhada por Moscovici quando propôes o conceito de “sociedade pensante”: assim como a sociedade pode ser considerada um sistema econômico e um sistema político, também pode ser considerada um sistema pensante. Quer dizer, um espaço de interação social onde as pessoas se interrogam e procuram encontrar respostas para questões que, em conjunto com outras, se colocam. Mas quais são os processos sociais e psicológicos que acompanham a produção de pensamento social? Esta é uma questão que abordaremos em outro post…

Grande abraço!

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Hélio Teixeira - Cientista-chefe do Centro de Estudos e Pesquisa em Ciência de Dados e Inteligência Artificial do IHT - é um estudioso da aprendizagem e da criatividade humanas como processos segundo ele "participativos e sociotecnicamente distribuídos." Sua pesquisa busca entender o que ele chama de "estruturas sociotécnicas de pertencimento necessárias à emergência da aprendizagem e da criatividade nos grupos humanos, concebidos como sistemas complexos." Ele adota uma abordagem transdisciplinar, articulando saberes da ciência da complexidade, ciências da aprendizagem, psicologia social, design participativo, inteligência artificial e psicologia cognitiva. Cientista de dados especializado em modelagem de dados e inteligência artificial algorítmica. Apaixonado por Modelagem Baseada em Agentes, com predileção pelos ambientes Mesa/Python e NetLogo, e pelo desenvolvimento de algoritmos de inteligência artificial. É fundador do Instituto Hélio Teixeira (IHT), do ColaboraLab e do Programa Letramento Tecnológico.

1 COMENTÁRIO

  1. Hélio, boa noite!
    Gostei muito do texto acima, me ajudou a esclarecer algumas coisas, e talvez você possa me ajudar um pouco mais. Estou querendo concorrer a uma bolsa de mestrado da UNIFESP em Ciências Sociais, cuja linha de pesquisa que escolhi é PENSAMENTO POLÍTICO-SOCIAL, ESTADO E AÇÃO COLETIVA. Gostaria de estabelecer um recorte voltado para a quebra de paradigma do Estado como provedor universal das coisas, sobretudo o trabalho, e nessa linha partir para as ações coletivas que empoderam as pessoas de baixa renda, ensinando-as a empreender, libertando-as do pensamento de que elas dependem do Estado. Mas empaquei. Tenho que apresentar o projeto de pesquisa e não consigo formular um problema com relação a isso. Você tem alguma ideia?
    Obrigada!!!

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