O que é Influência Social?

0
6593

O leitor certamente concordará que uma das grandes conquistas das sociedades democráticas modernas é a consagração da liberdade individual e do livre arbítrio enquanto princípios inalienáveis de qualquer ser humano. Na ausência de opressão de regimes ditatoriais agimos de acordo com um conjunto de princípios e valores cujos mais elementares são, em geral, largamente difundidos e partilhados. Mas quererá isto dizer que não somos influenciados nos nossos julgamentos, atitudes e crenças? Claro que não.

O leitor certamente concordará que em algumas circunstâncias poderá ser influenciado por outrem. A sua posição sobre um dado tema poderá mudar um pouco em função da opinião daqueles por quem nutre respeito intelectual; quando indeciso poderá ter tendência a ser influenciado pelos grupos de pessoas com quem se identifica; por vezes poderá até assumir atitudes que à partida nunca pensou que aceitaria porque é influenciado por aqueles, que, de uma maneira ou de outra, são importantes para sim, correto? Ou seja, haverá sempre conjunturas sociais que o levarão a mudar de opinião ou até agir contra aquilo em que acredita só para se conformar com os outros, ou para responder de acordo alguém com maior estatuto social do que o próprio leitor, certo?

Haverá sempre circunstâncias em que é possível que prefira, por exemplo, um vinho avinagrado a um vinho bom; em que vai aceitar afirmações como “a maior parte das pessoas estaria melhor se nunca tivesse ido à escola”; a conformar-se com asserções sobre si próprio do gênero “Não sou capaz de fazer nada bem”.

O que é influência social?

Alguém é influenciado socialmente quando o seu comportamento se altera na presença real ou imaginária de outrem.

A influência social foi definida por Secord Backman (1964) como ocorrendo quando “as ações de uma pessoa são condição para as ações de outra”. Ou seja, podemos dizer que o comportamento de alguém foi influenciado socialmente quando ele se modifica na presença de outrem. É preciso notar que, para que esta definição se adeque ao campo da psicologia social onde se originou, é necessário acrescentar que esta “presença de outrem” não é necessariamente real. Esse outrem pode ser apenas imaginado, pressuposto ou antecipado sem que os fenômenos provenientes dessa influência cessem de ocorrer.

Influência social X comportamento

Tanto a psicologia (especialmente a psicologia social), a sociologia e a antropologia a influência social é uma das bases que define nossos comportamentos dialeticamente, ou seja, modelando nossos comportamentos e sendo modelada por nossas respostas em retorno.

Sua importância para definir nosso comportamento está estimada entre 30 e 90% dependendo da definição utilizada. Definindo, na maioria das vezes subconscientemente, por exemplo, que roupa vamos utilizar, quais comportamentos são adequados em determinado ambiente, o que devemos e não devemos fazer durante uma fase de desenvolvimento e diretamente e indiretamente influenciando as leis de uma nação.

Os principais mecanismos dessa modelagem, segundo a psicologia comportamental ou behaviorismo, estão no reforçamento e punição. Sendo mais eficazes de acordo com a assertividade e a retórica do agente influenciador.

Assim por exemplo um amigo pode mediar comportamentos em outro amigo com quem tenha empatia sorrindo e elogiando quando ele executar um comportamento que lhe seja considerado como agradável e desejável e ficando com raiva e criticando comportamentos que ele considere desagradável e indesejável.

Influência social às claras

Uma situação criada em programa de pegadinha (veja vídeo abaixo) vai ilustrar muito bem o que é influência social às claras.

A cena passa-se numa sapataria. Uma senhora acabou de provar uns sapatos e preparava-se para se levantar e sair quando dá conta da falta dos seus próprios sapatos. Pergunta à empregada onde estão os seus sapatos. A empregada, muito calma, afirma: “Os seus sapatos?! Oh, minha senhora, a senhora quando entrou nesta loja já vinha descalça! Eu até notei logo que a senhora não tinha sapatos, porque, como deve calcular, uma coisa dessas dá logo nas vistas…”

A senhora não quis acreditar, como é fácil supor, mas outras empregadas confirmaram que ela tinha entrado sem sapatos. A senhora só dizia: “Mas eu não estou maluca! É impossível! Eu não vinha descalça para a rua…” Mas pouco a pouco até os outros clientes se metiam na conversa e corroboravam a versão da empregada, para desespero da senhora. E, aos poucos, ela foi se convencendo. Por fim, dizia: “Bom, devo ter esquecido os sapatos na outra sapataria. Mas que distração, a minha…”, e ria nervosamente.

Claro que a pobre senhora foi vítima de uma grande pegadinha – uma das empregadas escondeu os sapatos e as outras “testemunhas” (colegas e clientes) eram comparsas da encenação.

Este pequeno episódio é espantoso. Demonstra como os outros podem nos fazer duvidar das certezas mais evidentes. No fundo, trata-se de influência social às claras.

Influência social às escuras

Para entender a influência social às escuras, vamos tomar como ponto de partida um conceito central da psicologia, o de “quadro de referência”. Este conceito refere-se à tendência generalizada que os indivíduos apresentam para organizar as suas experiências, estabelecendo relações, em cada momento, entre estímulos internos e externos, criando unidades funcionais que fornecem limites e significado àquilo que é experimentado. Um exemplo simples vai explicar melhor do que estamos falando.

Se colocarmos uma mão em água fria e depois a mergulharmos em água morna, a água morna vai nos parecer estar quente. Se colocarmos uma mão em água quente e depois a mudarmos para água morna, a água morna vai nos parecer estar fria. Porquê? Basicamente, porque as sensações não dependem apenas das qualidades da estimulação mas também, em muito, da situação em cada sensação num dado quadro de referências subjetivo, onde se relaciona com outras experiências relevantes e acessíveis do indivíduo. Neste caso, a sensação de temperatura da água depende sempre de uma comparação implícita com a experiência imediatamente anterior.

Este fenômeno de organização da experiência à volta de um quadro de referência é tão geral que possui influência em áreas tão diversas como a percepção, a estimativa de grandezas físicas, a memória, o afeto ou a personalidade.

Segundo Musafer Sherif, este processo de “influência às escuras”, é o fundamento psicológico que se encontra na base da formação de normas culturais como fenômeno generalizado. “A uniformidade de padrões dentro de uma mesma cultura, que vai desde a maneira de usar talheres à mesa até às formas que o flerte é assumido é sintoma de um fundamento psicológico comum”. Daí a necessidade de estudar a formação de quadros de referência, para aclarar o modo como as atitudes e crenças (quadros de referência individuais) se inter-relacionam, desde a sua gênese, com as normas grupais e culturais (quadro de referência sociais) .

Compartilhar
Hélio Teixeira - Cientista-chefe do Centro de Estudos e Pesquisa em Ciência de Dados e Inteligência Artificial do IHT - é um estudioso da aprendizagem e da criatividade humanas como processos segundo ele "participativos e sociotecnicamente distribuídos." Sua pesquisa busca entender o que ele chama de "estruturas sociotécnicas de pertencimento necessárias à emergência da aprendizagem e da criatividade nos grupos humanos, concebidos como sistemas complexos." Ele adota uma abordagem transdisciplinar, articulando saberes da ciência da complexidade, ciências da aprendizagem, psicologia social, design participativo, inteligência artificial e psicologia cognitiva. Cientista de dados especializado em modelagem de dados e inteligência artificial algorítmica. Apaixonado por Modelagem Baseada em Agentes, com predileção pelos ambientes Mesa/Python e NetLogo, e pelo desenvolvimento de algoritmos de inteligência artificial. É fundador do Instituto Hélio Teixeira (IHT), do ColaboraLab e do Programa Letramento Tecnológico.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here