Os teóricos neopiagetianos

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Os teóricos neopiagetianos (neo-, “novo”) baseiam-se em uma ampla compreensão da teoria do desenvolvimento cognitivo, de Piaget. Embora cada neopiagetiano seja diferente, a maioria deles: (a) aceita a noção geral dos estágios do desenvolvimento cognitivo, de Piaget; (b) concentra-se nos aspectos científicos ou lógicos desse desenvolvimento (muitas vezes, observando as crianças empenharem-se em muitas das mesmas tarefas usadas por Piaget); e (c) conserva alguns vínculos com a noção de que o desenvolvimento cognitivo ocorre através da equilibração. Das muitas teorias neopiagetianas, consideramos aqui brevemente apenas algumas. Primeiramente, descrevemos sucintamente algumas teorias que postulam um quinto estágio de desenvolvimento cognitivo, tais como as teorias de Patrícia Arlin e outros. A seguir, consideramos as teorias alternativas propostas por dois outros teóricos neopiagetianos do desenvolvimento: Robbie Case e Kurt Fischer.

Teóricos do Quinto Estágio

Os teóricos do quinto estágio não postulam uma teoria do desenvolvimento cognitivo inteiramente diferente; em vez disso, eles baseiam-se nos quatro estágios de Piaget, sugerindo um quinto estágio, além das operações formais. Patricia Arlin propõe que um quinto estágio do desenvolvimento cognitivo é a descoberta de problemas. Nesse quinto estágio, as pessoas chegam a dominar as tarefas de entender exatamente com quais problemas se deparam e decidir quais delas são mais importantes e dignos dos seus esforços para a solução.

os neopiagetianos tomam aspectos da teoria de Piaget e misturam-nos para formar novas teorias de sua própria lavra

Diversos teóricos sugeriram que o raciocínio lógico, além das operações formais de Piaget, pode encaminhar-se para um quinto estágio de pensamento dialético. Esse pensamento reconhece que, em grande parte da vida, não há uma resposta correta final, mas, mais exatamente, uma sequência de crenças pelas quais, primeiramente, propomos alguma espécie de tese, então, mais tarde, vemos sua antítese e, finalmente, realizamos alguma espécie de síntese entre ambas, a qual, depois, funciona como uma nova tese para a evolução contínua do pensamento. Por exemplo, os adultos usam o pensamento dialético, quando consideram um extremo, a seguir o outro, e afinal incorporam apenas os melhores elementos de cada extremo.

Psicólogos como Dierdre Kramer, Gisela La-bouvie-Vief, Juan Pascual-Leone e Klaus Riegel afirmam que, depois do estágio de operações formais, alcançamos um estágio de pensamento pós-formal, no qual, reconhecemos os constantes desdobramentos e a evolução do pensamento, tal qual na dialética proposta originalmente pelo filósofo Georg Hegel. O pensamento pós-formal possibilita que os adultos manipulem, mentalmente, os caprichos e as inconsistências das situações cotidianas, nas quais, raramente, estão disponíveis respostas simples e sem ambiguidades. Pelo pensamento pós-formal, podemos refletir e escolher dentre alternativas, reconhecendo que outras alternativas podem oferecer benefícios inalcançáveis a partir da escolhida.

Variações da Teoria de Piaget

Robbie Case concorda com Piaget no sentido de que o desenvolvimento cognitivo segue apenas quatro estágios entre o nascimento e a vida adulta. As variações etárias nos estágios de Case e, mesmo, a sua natureza são quase as mesmas dos estágios de Piaget. Case sustenta que uma das principais mudanças no desenvolvimento está na capacidade de uma criança reunir “esquemas mentais” – planos para resolver diferentes tipos de problemas. À medida que a capacidade de processamento da informação das crianças aumenta, da mesma forma aumenta sua capacidade para manipular essas representações internas.

Case sugeriu dois tipos de processos pelos quais o desenvolvimento cognitivo é alcançado:na intercoordenação, a criança usa ativamente os recursos de atenção para formar novas estruturas cognitivas, tais como a exploração do ambiente e a resolução de problemas. Em comparação, o outro tipo de processo (envolvendo dois processos específicos) implica na redução da quantidade de recursos de atenção necessários para desempenhar uma determinada tarefa, liberando, desse modo, esses recursos para outros processos cognitivos. Pela consolidação, a criança integra em um todo unificado as múltiplas estruturas existentes, e pela automização a repetida prática de procedimentos pela criança reduz a quantidade de esforço consciente necessário para a realização desses procedimentos, transformando-os de processos controlados para processos automáticos. (A maioria dos psicólogos cognitivos usa o termo automatização para referir-se a um processo semelhante em adultos).

Como Case , Kurt Fischer sugeriu vários mecanismos para o desenvolvimento cognitivo, os quais permitem que as crianças progridam de um nível de desenvolvimento para outro. Segundo Fischer, para qualquer habilidade dada, elas exibirão um desenvolvimento contínuo dentro de um determinado nível de desenvolvimento contínuo, até que alcancem o nível ótimo (desempenho máximo de habilidade) que pode ser atingido para esse nível de desenvolvimento. Por exemplo, as crianças pequenas podem ser capazes de descentrar-se de uma dimensão de um objeto concreto, a fim de considerarem duas dimensões de vários objetos concretos, e mostrar essa descentração numa série crescente de objetos concretos, ao longo de várias tarefas ou, mesmo, de tipos de tarefas. Entretanto, não serão capazes de representar mentalmente múltiplas dimensões, até que progridam para um nível mais alto de desenvolvimento cognitivo.

os neopiagetianos vão mais longe do que Piaget ao reconhecerem a importância de outros modos de pensar além do raciocínio lógico-matemático, das influências ambientais no desenvolvimento cognitivo, das inconstâncias entre tarefas e mesmo entre os domínios das tarefas…

De acordo com Fischer, o progresso ulterior não pode ser atingido até que a criança tenha dominado todas as habilidades necessárias para passar ao nível seguinte de desenvolvimento. Logo que todas as habilidades necessárias para um dado nível sejam dominadas, a criança pode interconectá-las, a fim de lançar-se para o próximo nível de desenvolvimento cognitivo. Assim, ele trata simultaneamente das questões da continuidade versus descontinuidade e do desempenho versus competência, sugerindo que podemos conceber desenvolvimento em função de mudanças contínuas no desempenho típico, acompanhadas por mudanças descontínuas nos níveis ótimos de competência.

Para resumir, os neopiagetianos tomam aspectos da teoria de Piaget e misturam-nos para formar novas teorias de sua própria lavra. Como Piaget, a maioria desses teóricos concorda que: (a) as crianças constroem ativamente suas representações cognitivas, por intermédio de interações com seu ambiente, e (b) elas baseiam-se nas habilidades sensório-motoras e em representações mentais concretas e relativamente simples, para construírem capacidades cognitivas de nível relativamente alto, abstratas e complexas. Por outro lado, os neopiagetianos vão mais longe do que Piaget ao reconhecerem a importância de outros modos de pensar além do raciocínio lógico-matemático, das influências ambientais no desenvolvimento cognitivo, das inconstâncias entre tarefas e mesmo entre os domínios das tarefas, das distinções entre desempenho típico e da competência ótima dentro de um dado nível ou estágio de desenvolvimento e das diferenças individuais ao expressarem a realização dentro de um determinado estágio. A maioria daqueles que o seguem também usa novas metodologias para completar as tarefas, as observações e as interpretações de Piaget. Em compensação, seu contemporâneo Lev Vygostsky adotou uma abordagem inteiramente diferente para conceber o desenvolvimento cognitivo.

REFERÊNCIAS:

Case, R. (1985). Intellectual development. Birth to adulthood. New York: Academic Press.

Case, R. (1985). Intellectual Development: Birth to Adulthood
http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.2044-8279.1986.tb02666.x/abstract

The Structure and Process of Intellectual Development
http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/00207598708246796?journalCode=pijp20

Intellectual Development, Paperback – March 27, 1992
by Robert J. Sternberg PhD (Editor), Cynthia A. Berg (Editor)
https://www.amazon.com/Intellectual-Development-Robert-Sternberg-PhD/dp/0521397693

https://en.wikipedia.org/wiki/Neo-Piagetian_theories_of_cognitive_development

Mechanisms of cognitive development: behavioral and neural perspectives
James L. McClelland, Robert S. Siegler

Kurt Fisher

Fischer, K. W., & Bidell, T. R. (1998). Dynamic development of psychological structures in action and thought. In R. M. Lerner (Ed.), & W. Damon (Series Ed.), Handbook of child psychology: Vol. 1. Theoretical models of human development (5th ed., pp. 467-561). New York: Wiley.)

Fischer, K. W. (1980). A theory of cognitive development: The control and construction of hierarchies of skills. Psychological Review, 87, 477-531.
https://www.gse.harvard.edu/~ddl/articlesCopy/FischerTheoryCognDev1980W.pdf

Constraining nativist inferences about cognitive capacities
https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=oBv4CcWZKzgC&oi=fnd&pg=PA199&dq=Constraining+nativist+inferences+about+cognitive+capacities&ots=9kua3EYDta&sig=OA1o8HbE80Te6YXpW3z1G8rYABg#v=onepage&q=Constraining%20nativist%20inferences%20about%20cognitive%20capacities&f=false

Mais sobre o professor Kurt Fisher em: https://en.wikipedia.org/wiki/Kurt_W._Fischer

Patricia Arlin

Cognitive Development in Adulthood: A Fifth Stage?
https://www.researchgate.net/publication/232589818_Cognitive_Development_in_Adulthood_A_Fifth_Stage

Leia também:

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Hélio Teixeira – Cientista-chefe do Centro de Estudos e Pesquisa em Ciência de Dados e Inteligência Artificial do IHT – é um estudioso da aprendizagem e da criatividade humanas como processos segundo ele “participativos e sociotecnicamente distribuídos.” Sua pesquisa busca entender o que ele chama de “estruturas sociotécnicas de pertencimento necessárias à emergência da aprendizagem e da criatividade nos grupos humanos, concebidos como sistemas complexos.” Ele adota uma abordagem transdisciplinar, articulando saberes da ciência da complexidade, ciências da aprendizagem, psicologia social, design participativo, inteligência artificial e psicologia cognitiva. Cientista de dados especializado em modelagem de dados e inteligência artificial algorítmica. Apaixonado por Modelagem Baseada em Agentes, com predileção pelos ambientes Mesa/Python e NetLogo, e pelo desenvolvimento de algoritmos de inteligência artificial. É fundador do Instituto Hélio Teixeira (IHT), do ColaboraLab e do Programa Letramento Tecnológico.

4 COMENTÁRIOS

  1. Olá Kátia,

    Segue abaixo as referências dos três autores neopiagetianos citados no texto.

    Também vou te enviar, por email, alguns textos que eu tenho sobre o tema, em formato digital, que podem ser úteis em sua pesquisa.

    Aconselho ainda que você se inscreva em nossa lista de discussão. Lá a gente troca muitas informações e abre um espaço amplo para a construção de conhecimento juntos.

    Para fazer a sua inscrição em nossa lista de discussão, basta enviar um e-mail para instituto-helio-teixeira@googlegroups.com.

    Segue a lista de referências:

    Robbie Case

    Case, R. (1985). Intellectual development. Birth to adulthood. New York: Academic Press.

    Case, R. (1985). Intellectual Development: Birth to Adulthood
    http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.2044-8279.1986.tb02666.x/abstract

    The Structure and Process of Intellectual Development
    http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/00207598708246796?journalCode=pijp20

    Intellectual Development, Paperback – March 27, 1992
    by Robert J. Sternberg PhD (Editor), Cynthia A. Berg (Editor)
    https://www.amazon.com/Intellectual-Development-Robert-Sternberg-PhD/dp/0521397693

    https://en.wikipedia.org/wiki/Neo-Piagetian_theories_of_cognitive_development

    Mechanisms of cognitive development: behavioral and neural perspectives
    James L. McClelland, Robert S. Siegler

    Kurt Fisher

    Fischer, K. W., & Bidell, T. R. (1998). Dynamic development of psychological structures in action and thought. In R. M. Lerner (Ed.), & W. Damon (Series Ed.), Handbook of child psychology: Vol. 1. Theoretical models of human development (5th ed., pp. 467-561). New York: Wiley.)

    Fischer, K. W. (1980). A theory of cognitive development: The control and construction of hierarchies of skills. Psychological Review, 87, 477-531.
    https://www.gse.harvard.edu/~ddl/articlesCopy/FischerTheoryCognDev1980W.pdf

    Constraining nativist inferences about cognitive capacities
    https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=oBv4CcWZKzgC&oi=fnd&pg=PA199&dq=Constraining+nativist+inferences+about+cognitive+capacities&ots=9kua3EYDta&sig=OA1o8HbE80Te6YXpW3z1G8rYABg#v=onepage&q=Constraining%20nativist%20inferences%20about%20cognitive%20capacities&f=false

    Mais sobre o professor Kurt Fisher em: https://en.wikipedia.org/wiki/Kurt_W._Fischer

    Patricia Arlin

    Cognitive Development in Adulthood: A Fifth Stage?
    https://www.researchgate.net/publication/232589818_Cognitive_Development_in_Adulthood_A_Fifth_Stage

    Abraço!

  2. Oi Kátia,

    Tentei enviar os textos para o seu email, mas a mensagem retornou com erro. Confira se o email que você forneceu está correto e envie outra mensagem aqui com o endereço correto que eu te retorno com os textos.

    Abraço!

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