O que é Teoria da Convergência Simbólica?

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De acordo com a Teoria da Convergência Simbólica de Ernest Bormann os grupos criam uma consciência comum, partilhando emoções, motivos e significados. Em sua elaboração, Borman confere especial atenção à criação de “fantasias” resultantes de processos com alguns paralelismos com as perspectivas psicanalíticas.

A noção de fantasias socialmente compartilhadas pode igualmente aproximar-se da teoria das representações sociais, introduzida por Serge Moscovici.

A teoria da convergência simbólica sugere que os humanos comunicam entre si como atores sociais. Para Boermann, o conteúdo das mensagens é o significado, conceito este formulado a partir da influência de Robert Bales. Boermann expande assim o conceito de fantasia, atribuindo a este conceito um processo de identificação no qual os indivíduos expressam  a sua capacidade criativa de interpretação de eventos e a necessidade da retórica. A fantasia é assim útil na forma como as pessoas se relacionam ou como retiram significado para as suas vidas.

Quando uma fantasia é partilhada e as pessoas se tornam ativamente envolvidas  e contribuem para essa mesma fantasia, há uma convergência simbólica.

Quando uma fantasia é partilhada e as pessoas se tornam ativamente envolvidas  e contribuem para essa mesma fantasia, há uma convergência simbólica.

Construção de identidade

A teoria da convergência simbólica tem sido bastante útil na explicação da construção de identidade dentro de um grupo de pessoas. A teoria sugere que a persuasão está relacionada com a criação de significado e que a partilha de significados é uma função básica da retórica.

Teoria da comunicação

A teoria da convergência simbólica (TCS) é uma teoria da comunicação em geral. A TCS explica os significados, as emoções, valores e motivos para a ação na retórica de que é co-criada por pessoas que tentam dar sentido a uma experiência comum.

Construção da comunidade

Bormann defende que essa convergência simbólica constitui uma base para a comunicação e para a criação da comunidade, na qual se podem discutir experiências comuns e alcançar a compreensão mútua. Para ele, pessoas que experimentam conjuntamente emoções, que desenvolveram atitudes e interpretaram algum aspecto de sua experiência da mesma forma, em suma, que sentiram a convergência simbólica, partilham a mesma fantasia. Na terminologia do autor, fantasia não é uma ilusão imaginária, mas a “interpretação criativa e imaginativa de eventos” (Foss, 1989).

a convergência simbólica constitui uma base para a comunicação e para a criação da comunidade, na qual se podem discutir experiências comuns e alcançar a compreensão mútua

A TCS baseia-se nas experiências realizadas pelo próprio Borman e por Robert Bales. Este descobriu o processo dinâmico de fantasial grupal, descrevendo a forma pela qual a comunicação dramatizada cria a realidade social para os grupos. Nas dramatizações, o drama é um espelho da situação do grupo: as ambiguidades, os choques de papéis, o conflito de liderança aparecem simbolizados no encadeamento da fantasia das pessoas. Valores e atitudes, dramas políticos e religiosos são testados e legitimados nesse processo, de maneira que os grupos acabam por criar uma cultura própria.

Para Bales, a cultura do grupo traz aos membros o sentimento de ter entrado numa outra realidade, num mundo de heróis, vilões, santos e inimigos. A pessoa passa a viver num mundo de fantasias psicodramática, do qual os outros membros também fazem parte.

A hipótese de Bormann é de que essas vivências acontecem também em grupos maiores, como quando as pessoas ouvem um discurso público, bem como nos processos de comunicação de massa. As dramatizações que empolgam os pequenos grupos espalham-se por meio de públicos maiores, servindo para sustentar o senso de comunidade dos membros, para impeli-los à ação, fornecendo-lhes uma realidade social.

Pessoas que compartilham de uma visão retórica formam uma comunidade retórica, participando de um sistema simbólico comum e respondendo às mensagens de maneira coerente à sua visão retórica. Os vilões e os heróis estarão definidos e provocarão sentimentos semelhantes, seu critério de evidência será o mesmo, bem como os motivos para a sua ação

Bormann voltou-se então para a questão de saber até que ponto existe uma dimensão retórica da comunicação associada a esses episódios. Algumas fantasias de grupo se encadeiam mais facilmente, devido à habilidade com que o drama é representado. Assim, se um comunicador habilidoso, deliberadamente, pode agir retoricamente para influenciar uma audiência, fica demonstrada a existência de dramatizações planejadas, intencionais, em condições de captar a atenção de outras pessoas. Audiências massivas partilham fantasias, elaboradas cuidadosamente, com base em análises de públicos-alvo. A esses dramas compostos, que envolvem grandes grupos de pessoas, Bormann denominou visão retórica.

Seu método de análise objetiva delinear o “tema-fantasia” envolvido na comunicação, ou seja, o tema pelo qual o grupo realiza a interpretação de fatos passados, de eventos atuais, da realidade dos participantes, em suma.

Bormann defende que as fantasias partilhadas são necessárias para a argumentação, no sentido de que são elas que estabelecem o sistema de pressupostos que constituem a base para os argumentos irracionais da persuasão, mas, também, fornece uma base para os argumentos racionais, uma vez que o argumento discursivo requer um conjunto de suposições sobre a natureza da realidade.

Pessoas que compartilham de uma visão retórica formam uma comunidade retórica, participando de um sistema simbólico comum e respondendo às mensagens de maneira coerente à sua visão retórica. Os vilões e os heróis estarão definidos e provocarão sentimentos semelhantes, seu critério de evidência será o mesmo, bem como os motivos para a sua ação, ou seja, o indivíduo participará do mesmo drama partilhado. O exemplo de Bormann é o cristão que, ao ser batizado nasce de novo, adota um estilo de vida e uma conduta determinada e modela pelos heróis daquela visão retórica. Ele escreve:

Os indivíduos em transações retóricas criam mundos subjetivos de expectativas e significados comuns. Contra o panorama de grandes eventos e forças aparentemente comuns. Contra o panorama de grandes eventos e forças aparentemente imutáveis, da sociedade ou da natureza, o indivíduo frequentemente se sente perdido e desesperado. Um mecanismo para superar essa situação é sonhar uma fantasia individual que forneça um senso de significado e sentido para o indivíduo e ajude a protegê-lo das pressões da calamidade natural e do desastre social. A visão retórica serve muito bem a essa função de luta para aqueles que participam do drama e frequentemente com muito mais força devido ao calor do apoio dos companheiros com mentalidades semelhantes. (Bormann, 1989, p.214).

Para Bormann, as palavras não emanam simplesmente do contexto social, elas são o contexto social. Nos momentos confusos, ambíguos, as pessoas são liberadas para fantasiar, segundo sua visão retórica, quando, então, os temas-fantasia se convertem nos principais sistemas explcativos para os fatos, como ilustram os boatos. Como é a visão retórica que proporciona o sentido das ações, estas têm pouco sentido para as pessoas de fora, mas podem ser imperativas no contexto da visão, que lhes proporciona o motivo, legitima-as e as explica. Para Bormann, o drama de tema-fantasia de uma grande coletividade é uma chave para a compreensão da realidade social, na medida em que a participação nele proporciona aos indivíduos as emoções, significados, atitudes com relação às personae do drama, permitindo-lhes compartilhar uma visão comum de um aspecto da experiência.

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Hélio Teixeira – Cientista-chefe do Centro de Estudos e Pesquisa em Ciência de Dados e Inteligência Artificial do IHT – é um estudioso da aprendizagem e da criatividade humanas como processos segundo ele “participativos e sociotecnicamente distribuídos.” Sua pesquisa busca entender o que ele chama de “estruturas sociotécnicas de pertencimento necessárias à emergência da aprendizagem e da criatividade nos grupos humanos, concebidos como sistemas complexos.” Ele adota uma abordagem transdisciplinar, articulando saberes da ciência da complexidade, ciências da aprendizagem, psicologia social, design participativo, inteligência artificial e psicologia cognitiva. Cientista de dados especializado em modelagem de dados e inteligência artificial algorítmica. Apaixonado por Modelagem Baseada em Agentes, com predileção pelos ambientes Mesa/Python e NetLogo, e pelo desenvolvimento de algoritmos de inteligência artificial. É fundador do Instituto Hélio Teixeira (IHT), do ColaboraLab e do Programa Letramento Tecnológico.

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