Grupos humanos como sistemas complexos

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Os grupos são sistemas sociais essenciais à vida humana, aglutinando experiências fundamentais na construção do indivíduo e da sociedade. A importância dos grupos resulta da sua capacidade em satisfazer múltiplas necessidades individuais e coletivas, influenciando opções comportamentais e um largo espectro de processos emocionais, espirituais, motivacionais e cognitivos determinantes na dinâmica e desempenho individual e coletivo e em última instância na integração e coesão social.

Apesar de sua importância em nossas vidas, definir os grupos humanos continua sendo um grande desafio. Como distinguir grupos de não grupos, ou ainda como distinguir grupos de equipes, grupos de organizações, ou de meros agregados física ou mentalmente próximos?

Definir nunca é uma tarefa fácil e muito menos definitiva. No que se refere aos grupos, podemos recensear uma variedade de definições com as mais variadas perspectivas teóricas adotadas por seus autores.

Entre as inúmeras perspectivas possíveis (que iremos discutir mais adiante em outros posts), neste post quero discorrer sobre a noção de grupos enquanto sistemas complexo.

A ideia de pensar e estudar os grupos como sistemas complexos encontra-se dispersa numa vasta literatura. A teoria dos grupos como sistemas complexos resulta da incorporação de várias contribuições com raízes em uma vasta quantidade de campos científicos (teoria geral dos sistemas, teoria dos sistemas dinâmicos, teoria da complexidade e do caos, teoria dos sistemas adaptativos complexos). A sua inspiração original radica na ideias de Kurt Lewin, nos trabalhos de Hawthorne, nos desenvolvimentos matemáticos da teoria dos sistemas dinâmicos aplicados à psicologia, e no reconhecimento da não-linearidade das interações humanas e no seu caráter dinâmico e adaptativo. Na mesma linha de considerações, Joseph E. McGrath demonstrou a necessidade de considerar os grupos como exemplos de sistemas adaptativos, e compreender as transformações que neles ocorrem nos processos de troca interna e externa. A noção de complexidade do comportamento dos pequenos grupos e da inter-relação entre as múltiplas variáveis influentes nos seus processos foi igualmente assinalada por John Donelson Ross Forsyth .

O foco da teoria são os pequenos grupos como sistemas complexos de pessoas, objetivos, tecnologia e constrangimentos internos e externos, que evoluem e mudam no tempo. Os grupos são sistemas intactos, com fronteiras permeáveis, que permitem trocas contínuas com o meio, por isso nunca estão isolados ou fechados.

Holly Arrow e seus colegas, em sua obra Small Groups as Complex Systems: Formation, Coordination, Development, and Adaptation, consideram que são três as componentes do grupo:

O foco da teoria são os pequenos grupos como sistemas complexos de pessoas, objetivos, tecnologia e constrangimentos, que evoluem e mudam no tempo. são sistemas intactos, com fronteiras permeáveis, que permitem trocas contínuas com o meio

a) Pessoas, quem se torna membro? Os membros podem ser recrutados, associar-se por mero acaso ou impostos por entidades externas para realizar atividades;
b) Intenção/Propósito, qual é o projeto do grupo? Os grupos emergentes definem os seus próprios propósitos. Os grupos formalmente constituídos vêem os seus objetivos igualmente definidos externamente ou em certas circunstâncias é-lhes confiada alguma liberdade na sua definição;
c) Tecnologia, a qual fornece os meios para os grupos realizarem os seus projetos. A tecnologia inclui recursos e ferramentas. As ferramentas incluem ferramentas intangíveis como a partilha de conceitos, as convenções linguísticas, assim como ferramentas tangíveis como computadores e outros equipamentos.
Esta noção sobre a natureza dos grupos, tem as seguintes implicações:

1 – A estrutura e comportamento dos grupos incluem regularidade e elementos aleatórios;
2 – O comportamento de grupo envolve pelo menos três níveis de interação: os membros, o grupo como entidade em si, e o contexto em que o grupo se enquadra;
3 – A estrutura e o comportamento do grupo muda ao longo do tempo, produzindo padrões de desenvolvimento;
4 – À medida que o grupo muda, tende a tornar-se mais complexo, o que significa a proliferação em número e variedade de regularidades na estrutura e comportamento. A mudança é fruto da experiência, aprendizagem e história, e das respostas adaptativas face aos acontecimentos e desafios externos e internos.

Referências:

Holly Arrow, Joseph Edward McGrath, Jennifer L Berdahl em Small Groups as Complex Systems: Formation, Coordination, Development, and Adaptation

Kurt Lewin (1948) – Resolving social conflicts; selected papers on group dynamics

Joseph E. McGrath em https://www-2.rotman.utoronto.ca/facbios/file/3176646.pdfhttps://www.uni-muenster.de/imperia/md/content/psyifp/aeechterhoff/wintersemester2011-12/vorlesungkommperskonflikt/mcgrath_groupinteractperfom_1984.pdf

John Donelson Ross Forsyth em Group Dynamics

 

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Hélio Teixeira - Cientista-chefe do Centro de Estudos e Pesquisa em Ciência de Dados e Inteligência Artificial do IHT - é um estudioso da aprendizagem e da criatividade humanas como processos segundo ele "participativos e sociotecnicamente distribuídos." Sua pesquisa busca entender o que ele chama de "estruturas sociotécnicas de pertencimento necessárias à emergência da aprendizagem e da criatividade nos grupos humanos, concebidos como sistemas complexos." Ele adota uma abordagem transdisciplinar, articulando saberes da ciência da complexidade, ciências da aprendizagem, psicologia social, design participativo, inteligência artificial e psicologia cognitiva. Cientista de dados especializado em modelagem de dados e inteligência artificial algorítmica. Apaixonado por Modelagem Baseada em Agentes, com predileção pelos ambientes Mesa/Python e NetLogo, e pelo desenvolvimento de algoritmos de inteligência artificial. É fundador do Instituto Hélio Teixeira (IHT), do ColaboraLab e do Programa Letramento Tecnológico.

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